O racismo nosso de todo dia

Sou branca. Nasci no Rio de Janeiro e lá vivi até meus 7 anos de idade, quando nos mudamos para Luziânia – GO. Sim, foi uma puta de uma mudança. No Rio vivíamos em Jacarepaguá (“é longe pracaramba!”), no morro. Acima, tinha uma comunidade, que vivia próximo ao cemitério. Íamos eu e meu irmão lá brincar de subir nas mangueiras para comer as (melhores e mais saborosas) mangas. Brincávamos com todos, independente da cor da nossa pele.

Minha mãe trabalhava tempo integral e meu pai também. Por isso, meus pais contrataram uma “empregada” para ficar conosco ao longo do dia. A Cléa era negra e tinha 3 fihos, com pai ausente. Ela sozinha, cuidava de 5 crianças: 2 brancas e 3 negras. Ela morava na cidade de Deus. Sim, essa mesma que você viu ser retratada no filme.

Quando nos mudamos para Luziânia, Cléa e seus filhos foram conosco. Para ela também foi uma puta mudança de vida, para melhor eu acho. Possibilitou que ela e os filhos tivessem uma vida mais livre, longe do tráfico e da violência diária da cidade de Deus. Os filhos conseguiram ter acesso à educação, assim como ela também. Cléa era analfabeta e se esforçava para aprender. Eu gostava de ensiná-la, quando ela tinha um tempinho sobrando nas atividades diárias.

Nossos pais sempre conversavam conosco sobre a questão de respeitar todos e todas, independente da cor da pele, do status social e da opção sexual. E assim foi a minha infância, adolescência e vida adulta.

Mudamos para Brasília, mas Cléa se manteve em Luziânia. Tinha semanas que ela ia e voltava todos os dias, de ônibus. Minha mãe também passou por isso quando começou a trabalhar em Brasília, conosco morando em Luziânia ainda. Foram anos assim.

Quando minha mãe se aprosentou, Cléa passou a vir menos para casa. Até porque ela já estava ficando mais velha e a força de vida estava se esvaindo com o tempo e com a diabetes que a pegou de jeito. Mamãe ajudava como podia: pagava as injeções nos olhos, porque ela já estava com retinopatia diabética, pagava consultas aqui em Brasília com especialistas. Cléa não tinha plano de saúde e dependia do atendimento de hospital público, que nem sempre tinha vaga. Ela tinha que ir cedo e ficar esperando por um milagre, literalmente.

Quando sabia dessas coisas meu coração apertava, queria fazer algo a mais, mas não conseguia. Afinal considerava a Cléa minha mãe preta, minha segunda mãe. E eu falava para as pessoas com orgulho que eu tinha duas mães. Que privilégio e sorte a minha.

Cléa foi ficando doente e doente, até chegar um ponto em que não tinha mais o que fazer. Ficou internada e fomos lá vê-la. Mal sabia eu que seria a última vez que falaria com ela. 10/07/2016 data que marcou a despedida dela deste plano terrestre. 7 dias antes do meu aniversário, no último ano do meu doutorado. No dia do meu aniversário, senti falta do telefonema dela. Ela ligava sempre no dia do meu aniversário para dar os parabéns e saber das notícias e peripécias da vida.

Por que conto essa história?

Porque um pouco antes dela falecer, eu fiquei refletindo sobre a vida dela e a minha.

Cléa abdicou de ver e cuidar 100% dos seus filhos para cuidar de filhos de uma família branca. Apesar disso, sei que ela fez o máximo que ela pode para dar boa educação para seus 3 filhos e alguns netos. Era a matriarca! E que se ela não fizesse isso, seus filhos e netos não teriam a OPORTUNIDADE de estudarem, de se alimentarem e de viver em um ambiente (pelo menos parcialmente, porque Luziânia ao longo dos anos foi se tornando muito violenta) mais tranquilo e com um pouco mais de possibilidades do que a realidade no Rio de Janeiro da década de 1980.

Mesmo sendo cuidada por uma mulher fantástica e, em tese, sendo criada em um ambiente “antirracista”, ainda ria (quando criança e adolescente) de piadas racistas, sem saber que estava sendo racista, de piadas que às vezes eram contadas por meu pai. Sei que ele não fazia por mal e que provavelmente nem ele sabia que era racismo. Foi o jeito que ele aprendeu na infância e repassou, sem pensar, no automático. Essa ficha só foi cair para mim há uns anos. E desde então, estou em desconstrução.

Senti muito a passagem dela. Senti por não ter feito mais por ela. Por não retribuir tudo o que ela fez por mim durante sua vida. Por não sentar e conversar mais com ela sobre essas e outras questões.

Por isso escrevo tudo isso. Especilmanete no momento no qual estamos, para repensarmos as nossas atitudes e ações. Será que não estamos sendo racistas em ações que são “costumeiras” para nós, por estarmos no automático? Será que não estamos ferindo alguém que amamos pelos simples fato de nos calar em situações de agressão, mesmo que oral, a pretos/negros/pretas/negras? Como podemos desconstruir nosso discurso a fim de contemplarmos todos os seres, sem discriminações ou racismos?

Um bom começo é a leitura deste livro:

Boa leitura a todes.

Publicado por Carol Bernardo

Sou a Carol. Também sou bióloga, ecóloga e economista, bailarina, mãe de duas cãs, professora universitária, pesquisadora por paixão, vascaína por opção, carioca de nascimento, brasiliense de coração e escritora nas horas vagas.

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