Histórias de uma bióloga/ecóloga de campo – 1

Histórias de uma cientista de campo

Toda quarta-feira contarei um pouco das minhas peripécias como bióloga/ecóloga de campo. Foram 7 anos de experiência com coleta de dados no campo… se contar o período como docente, formam 9 anos de experiências mil!

Quero começar está série com a história das abelhas no Pantanal.

Em 2005 estava no primeiro ano de mestrado. Tínhamos a chance de fazer a disciplina de Ecologia de Campo, optativa (se não me engano) para alunos do curso de mestrado em Ecologia, fora de Brasília, em uma outra instituição de ensino. Escolhi fazer o curso de Ecologia de Campo da UFMS, que é dado no Pantanal sul-mato-grossense.

O curso é de 1 mês e dividido em 3 localidades do Pantanal. Todos os dias tínhamos projetos em grupo para fazer. Mas, na última semana de curso tínhamos que nos dedicar ao projeto individual. Cada um escolhia o tema, montava a metodologia e saia para coletar dados, sozinho ou em grupo. Tinha escolhido trabalhar com comportamento de Jaçanãs, que sempre me encantaram.

Só que no primeiro dia de campo caiu uma chuva SINISTRA!! Acabei voltando para a Base e pensando em mudar de projeto. Após tomar um esporro coletivo do professor coordenador, porque estávamos reclamando ou mudando de projeto só por causa de uma chuvinha, acabei decidindo por mudar mesmo!

Resolvi sair um pouco da minha área de estudo na época (ecologia comportamental) e fui para interação inseto-planta e delineei um projeto para estudar a ocorrência de galhas no Capão, uma formação florestal do Cerrado dentro de um mosaico de campo limpo.

Bacana! Todos os colegas que iriam trabalhar com o Capão iam e voltavam sempre o mesmo horário, juntos. Chegávamos no Capão e cada um ia “para o seu quadrado”! Isso significa que eu ia para dentro do Capão sozinha.

“Mas Carol, você não tinha medo?”

Não… acho que só tinha medo de dar de cara com uma onça pintada e não saber o que fazer (se tira foto, se corre, se pega um pedaço de pau e coloca na cabeça…).

Lá estava eu, toda feliz, marcando minha área para coleta (um quadrante de 1X1 m (se não me falhe a memória) quando uma abelha começou a me importunar. Ela voava minha cara, dificultando minha visão. Espantei com a mão. Ela saiu. Pensei: que maravilha! Finalmente uma abelha que não me picou! (Sim, eu tenho açúcar no sangue que atrai todas as abelhas do universo, só pode!). Minha alegria durou 1 minuto. Ela voltou e foi me importunar nas costas.

Eu tinha que agachar para marcar o local correto da retirada das folhas para análise. Todas as vezes que eu agachava, a região da lombar + cofrinho se despia. Imagino que era de assustar a abelha, ver aquela área branca na frente dela. Deve ser por isso que ela me picou! Dei um pulo, um grito de dor e minha única reação foi pegar o chapéu e bater com força no ar com a tentativa de espantar a abelha.

Eu acertei. Ela morreu. Fiquei aliviada e chateada ao mesmo tempo. Não queria matá-la, só queria que ela saísse de lá.

Pensei, bom, agora consigo trabalhar numa boa. Continuei marcando a altura das plantas e coletando as folhas.

Eis que, depois de alguns minutos, escuto um zumbido se aproximando. Parei o que estava fazendo, me levantei para tentar entender o que estava acontecendo e ver alguma coisa. O zumbido só aumentava… e eu me preocupava: devia correr, devia recolher tudo e sair de lá? O que fazer?

Alguns segundos eu consegui enxergar o enxame de abelha 🐝. Pensa no desespero da minha pessoa!!!

Sabe aqueles filmes em que a um grande mamífero ou um dinossauro (nos filmes Jurassic Park) está atrás das pessoas, e elas escorregam bem na hora que o animal está chegando perto, e elas rastejam no chão, desesperadas, no meio das folhas, terra, procurando um galho para se agarrar e levantar, e sair correndo de novo?

Então, essa era eu fugindo do enxame de abelhas… Literalmente assim!

Acabei deixando tudo para trás, caderneta de campo, bolsa, trena, lápis… depois que caí (me arrastei na serrapilheira), sai correndo para sair do Capão e fugir das abelhas. Consegui enxergar o Jeep, mas não tinha ninguém dentro! Desespero!

Por sorte, os meninos tinham deixado a porta aberta! Ufa! Consegui entrar. Me tranquei e cacei um álcool para passar na picada nas costas e para ver se o cheiro espantava as abelhas. Vi elas em volta do carro e eu respirando ofegante dentro do carro, com o olhar desesperador pedindo pelas forças do universo para que elas saíssem de lá!

Elas saíram e alguns minutos depois dois colegas chegaram no carro, para colocar a coleta deles lá e pegar mais material. E, obviamente, estranharam minha presença – e minha cara!

“Carol, você está bem o que aconteceu?!”

Contei toda a história, desse jeitinho que contei para você e eles caíram na gargalhada!!! E eu também! Ahahahahahaha (rio todas as vezes que conto ou me lembro dessa história!)

Foi ótimo para a adrenalina baixar e eu conseguir sair do carro e voltar ao local. Voltei, desmontei o quadrante, catei tudo que estava espalhado no chão e sai logo dali! Acabei não usando os dados coletados, porque não tinha terminado de coletar as folhas em todo o quadrante.

Escolhi entrar em outro ponto do mesmo Capão, mais distante possível desse local. E lá foi mais tranquilo. Aconteceu outra coisa por lá, mas isso é uma outra história! 😉

Publicado por Carol Bernardo

Sou a Carol. Também sou bióloga, ecóloga e economista, bailarina, mãe de duas cãs, professora universitária, pesquisadora por paixão, vascaína por opção, carioca de nascimento, brasiliense de coração e escritora nas horas vagas.

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