Duas questões sobre a vida acadêmica

Academia

O sistema acadêmico precisa mudar. Na verdade, o sistema de ensino precisa mudar. E, talvez, o momento que estamos vivendo seja uma grande oportunidade para isso acontecer.

Por que digo isso?

Porque essa afirmação é unânime dentre os grupos de discussões acadêmicas que estou envolvida. Todes pensam de maneira muito similar: o sistema acadêmico precisa mudar sua estrutura, sua forma de avaliação e de exigência de novos professores e acadêmicos.

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Não sei se você está familiarizado com a forma como o sistem funciona. Vou contar um pouquinho como vejo o sistema acadêmico.

Para quem quer seguir a vida como pesquisador, após fazer um curso de graduação deve continuar seus estudos em um curso de mestrado e doutorado. Para fazer doutorado, a maioria das Universidades federais exigem um curso de mestrado. Tudo isso é o que conhecemos como pós-graduação stricto sensu.

Cada curso de mestrado e de doutorado é avaliado de acordo com o número de publicações que os pesquisadores e professores dentro do programa tem. Não só quanto ao número de publicações, mas quanto à “qualidade” da publicação. Ou seja, se a maioria das pesquisas forem publicadas em revistas do tipo Qualis A1 ou A2, o curso está bem na fita, normalmente. Existem outros critérios de avaliação, mas o principal é esse. Tudo isso deve ser registrado dentro de uma plataforma da CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – que é o portal do governo para avaliação dos cursos de pós-graduação stricto sensu no país.

A grande maioria do financiamento para que novas pessoas ingressem em cursos de mestrado ou doutorado vem do governo federal, no caso do Brasil. Esse financiamento serve tanto para a manutenção do curso em si quanto para o pagamento de bolsas, para que os alunos desses cursos tenham dedicação exclusiva na pesquisa. #foconapesquisa. Cursos com notas maiores, mais bem avaliados pela CAPES, recebem maior financiamento do governo.

(Faça sua pesquisa) *Giphy

Dado todo esse cenário, tenho duas questões a pontuar aqui.

A primeira delas são as publicações. Normalmente, para que se publique em revistas qualificadas como de A1 ou A2 é necessário pagar pela publicação. Ou seja, o dinheiro que vem do financiamento público é também usado para pagar as editoras das revistas qualificadas como as melhores pela CAPES. E, na grande maioria das vezes, para que você tenha acesso ao artigo você, aluno, professor, pesquisador, também precisa pagar pelo acesso.

Isso significa que uma pesquisa que foi financiada com dinheiro público, deve ser publicada em uma revista de alta qualidade que é privada. A informação que deveria retornar às pessoas que pagaram pela pesquisa (todos nós) é de acesso privado. Ou seja, não retorna para a população que “pagou” pela pesquisa. E ainda tem um detalhe: as publicações normalmente são escritas em inglês para se tornarem mais “acessíveis” a todes.

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E você deve estar se perguntando, neste momento: “Todes quem, cara pálida?”. A todes pesquisadores que têm acesso a portais de pesquisa disponibilizados pelas instituições de pesquisa e ensino, que pagam pelo acesso desses artigos, ditos periódicos.

Claro que eu entendo da importância de se disseminar a pesquisa dentre toda a classe pesquisadora. Pois, uma pesquisa científica deve ser passível de replicação. No entanto, os maiores provedores de financiamento não veem o retorno da sua contribuição pela pesquisa, que é a população em geral. Na verdade, nem sabem que contribuem para a pesquisa no país.

E é por isso que vemos muitas iniciativas de “quebra” dessa privação ao acesso a periódicos, como é o caso do sci-hub. Numa tentativa de tornar a ciência mais acessível, “removendo barreiras” como eles mesmo afirmam.

A segunda questão é o sistema de bolsas e de dedicação exclusiva atrelado a ela. Não sei se vocês sabem, mas a bolsa de mestrado é de R$ 1.500,00 e a de doutorado é de R$ 2.200,00. Esse valor é o mesmo há 8 anos. Alunos de mestrado e doutorado não recebem décimo terceiro salário, não contribuem para o INSS – só se fizerem isso de maneira privada, destinando parte da bolsa para pagar imposto -, não tem direito a seguro de saúde e não são considerados trabalhadores pelo sistema. Mas, são exigidos que tenham dedicação exclusiva à pesquisa. Ou seja, SÓ podem pesquisar e NADA mais. E esse período não é considerado para contagem de aposentadoria, porque não é visto como “tempo de serviço”!

(O QUÊ?) *Giphy

Com esse valor, muitos pagam contas de luz, água, aluguel, plano privado de saúde (quando conseguem), alimentação mensal, creche e escola para seus filhos. E ainda tem que ter cabeça para e serem capazes de desenvolver sua criatividade para pesquisar. Como, eu pergunto?

Para ser criativo, precisamos de espaço mental. Esse espaço é criado quando estamos bem, quando nossa cabeça está livre de preocupações. Mas, como desenvolver este espaço ganhando R$1.500,00 ou R$ 2.200,00 por mês? Em teoria, esses pesquisadores estão sendo financiados para resolverem problemas práticos ou grandes perguntas da ciência, que impactarão no longo prazo a vida de todos nós, e eles recebem essa “mixaria” todo mês.

Você acha justo?

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Alguns programas de pós-graduação flexibilizaram, após uma Portaria do CNPq, o acúmulo de “funções” e recebimentos de alunos de pós-graduação. Desde que o trabalho realizado seja em consonância com o curso e que contribua para o desenvolvimento das funções de pesquisador. Só que essa liberação cabe ao coordenador do programa de pós-gradação e nem todos são “legais” assim.

Eu vivi só com bolsa de doutorado por um ano, até conseguir outras fontes de renda (por meio de trabalho informal). Tive muita ajuda durante este período. No terceiro ano de doutorado, fui empregada como professora em uma faculdade. Como a profissão de professor está dentro do escopo da função de pesquisador, eu pude acumular as funções e fui autorizada pelo coordenador do curso de pós-graduação que estava engajada. Tive sorte.

Mas, essa não é a realidade de muitos. Inclusive, não é a realidade de muitos que pesquisam sobre o Covid_19 neste exato momento. O MUNDO TODO está dependendo da pesquisa hoje, para que possamos retornar a nossa vida ao novo “normal”. E ainda assim vemos bolsas serem cortadas, programas serem descredenciados por não conseguirem a nota mínima para continuarem a receberem financiamento do governo. Aí eu pergunto, como eles vão melhorar sua nota se não terão oportunidades mais?

Existem muitas outras questões a serem discutidas sobre este assunto, como o próprio financiamento pelo governo, o sistema de avaliação de cursos, as exigências aos alunos de pós-graduação e a influência que essas exigências têm sobre a saúde dos aluno e futuros pesquisadores do país.

Muito “pano para manga”.

Se quiser entrar nesta discussão, deixe eu comentário e contribua para os próximos posts.

Publicado por Carol Bernardo

Sou a Carol. Também sou bióloga, ecóloga e economista, bailarina, mãe de duas cãs, professora universitária, pesquisadora por paixão, vascaína por opção, carioca de nascimento, brasiliense de coração e escritora nas horas vagas.

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