Histórias de uma bióloga/ecóloga de campo – 2

Hoje eu contarei uma história que aconteceu quando estava no final da graduação.

No final da graduação em Ciências Biológicas estava fazendo meu segundo Projeto de Iniciação Científica, conhecido como PIBIC na época. Escrevi um projeto sobre comportamento sexual de libélulas (Odonata) junto com minha orientadora.

Por que escolhi libélulas, você pergunta?

Escolhi esses bichos mais incríveis e bonitos do planeta (nada enviesado a minha opinião, né verdade!) por dois motivos principais: 1) eles tem o sistema sexual e reprodutivo mais doido que já tinha visto até então, muito complexo para um bicho tão antigo; e 2) tinha recém voltado do meu estágio fora de Brasília, com a ave migratória, maçarico-acanelado, no qual um bichinho desse morreu nas minhas mãos. Ele estava super doente e cheio de parasitas, mas meu coração rachou no momento e eu não conseguiria passar por aquilo de novo. Por isso, decidi não trabalhar mais com vertebrados (aves, no caso) e ir trabalhar com as libélulas, que já tinham me chamado a atenção e fisgado meu coração!

*Giphy

Bom, para eu observar as libélulas, eu tinha que capturá-las, marcá-las, medi-las e liberá-las. Meu campo, o local onde eu fazia tudo isso, era em uma região do Lago Paranoá no final da asa norte, em uma área pertencente à Universidade de Brasília (UnB). Pois, para quem não sabe, as libélulas são insetos aquáticos. Isso significa que elas tem a vida adulta terrestre/aérea, mas toda a vida “infanto-juvenil” ocorre dentro da água. Ela só sai da fase aquática para ir para a fase adulta e se reproduzir.

Eu entrava na Estação Biológica da UnB, que ficava no final da asa norte, deixava o carro estacionado, trocava de roupa, colocava as botas, pegava o puçá e todo o material de campo (trena, caderneta, lápis) e ia para o lago. Para chegar até as margens do lago eu tinha que pular uma cerca, que volta e meia eu encontrava aberta, com furos.

Eu entrava no lago e percorria as margens, olhando para a vegetação, procurando libélulas. Por isso, eu ficava virada de costas para o lago.

Um detalhe: no início do campo eu ia sozinha. Depois que este fato aconteceu, minha orientadora decidiu que seria melhor eu sempre ir acompanhada de alguém!

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Estava eu com o meu puçá, super compenetrada na vegetação, para ver se encontrava alguma libélula (na época ainda estava treinando meu olhar para o micromundo!), eis que me aparece um barquinho de pesca com um senhor dentro.

Senti a aproximação de algo, pois não o tinha visto. Quando olhei para trás, levei um susto! Cumprimentei e voltei para o que estava fazendo (não queria dar muito “ibope” para o pescador).

Ele começou a falar: “O que você está fazendo aí, moça?”

“Oi, sou da aluna da Universidade. Estou fazendo um trabalho de pesquisa com as lavadeiras” (não falei libélulas porque sei que nem todos associam libélulas às lavadeiras, que são a mesma coisa!), respondi.

Ele continuou: “mas a moça está sozinha?”.

Só balancei a cabeça com um sim.

“Moça, não pode ficar sozinha por aqui não. Não sabia que tem um jacaré que fica andando por aqui não? O jacaré é do tamanho desse barco (por volta de uns 4m). A duas semanas atrás, ele foi visto lá no brejo embaixo da ponte”(do Bragueto – uma região bem próxima de onde eu estava fazendo campo).

“É mesmo? Mentira!” – retruquei.

“Não, é verdade! Não é conversa de pescador não! Você não pode ficar sozinha aqui não, vai que esse jacaré surge e te morde. Ninguém vai ficar sabendo o que aconteceu contigo!”.

Falei, “é verdade! Obrigada por me avisar.” (na minha cabeça estava querendo recolher tudo e sair dali o mais rápido possível! Não tanto pelo jacaré, mas pela conversa, pela presença do pescador, porque sabe-se lá as reais intenções dele, né verdade! Até porque ele estava com o barco muito próximo de mim… Suava frio por dentro da roupa, mas mantinha a pose de ‘tá tudo joia!’).

“Tá bão, moça. Vou deixá você pesquisar seus bichos aí!”.

“Tá bem! Muito obrigada por me avisar! Tomarei mais cuidado!”- Finalizei.

“Tchau.”

Obviamente, eu não continuei o meu campo naquele dia! Esperei ele sumir na curva, e voltei correndo para o buraco da cerca, para o carro e para a UnB.

Cheguei lá e contei tudo para minha orientadora que me proibiu de ir para o campo sozinha e pediu para que eu arrumasse uns estagiários para ir comigo!

Confesso que fiquei mais com medo da pessoa que do jacaré em si. Depois descobri que de fato um jacaré tinha sido visto naquela região. (Veja esse texto) E, confesso também, que nem sempre cumpri minha palavra. Durante o mestrado continuei o projeto e nem sempre conseguia pessoas para ir comigo. Como “solução”, meu pai me deu uma faca afiada, que sempre levava comigo quando ia para o campo. Deixava ela escondida dentro do bolso da roupa. GRAÇAS nunca precisei usar! Só passei alguns sustos e sufocos, mas nada demais!

Portanto, meninas biólogas/ecólogas, não vão ao campo sozinha. Sei que nem sempre é possível, mas a vida de vocês vale mais que qualquer dado coletado. Sei que nem sempre pensamos assim, especialmente quando temos que entregar relatórios, escrever dissertações e teses com prazo, mas #ficaadica.

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Publicado por Carol Bernardo

Sou a Carol. Também sou bióloga, ecóloga e economista, bailarina, mãe de duas cãs, professora universitária, pesquisadora por paixão, vascaína por opção, carioca de nascimento, brasiliense de coração e escritora nas horas vagas.

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