Histórias de uma bióloga/ecóloga de campo – 3

Olá pessoal!

Hoje vou contar uma história de quando fui estagiária de um projeto fora de Brasília.

Em 2002, a Universidade de Brasília passava pela reposição de semestres após uma longa greve. Estávamos cumprindo três semestre em um ano. Imaginem a correria! Tínhamos somente 15 dias de “férias” entre um semestre e outro.

Nesse período eu já era estagiária do laboratório de comportamento animal, cujo principal objeto de pesquisa eram as aves. Um dia, quando entrei no departamento de zoologia, onde ficava o laboratório, vi o aviso na parede: “Preciso de estagiário para projeto com aves migratórias. O campo será realizado na região sul do Brasil, de dezembro de 2002 março de 2003. Paga-se toda a estadia, alimentação e translado.”

Pensei: Opa! Que oportunidade maravilhosa de conhecer outros habitats, bichos e ter a oportunidade de trabalhar com ecologia animal! Vou me inscrever! Quem estava oferecendo o estágio era uma ex-aluna (a Ju) da professora Regina, que era a orientadora do laboratório de comportamento animal e, que futuramente, se tornaria minha orientadora de iniciação científica e de mestrado. Essa ex-aluna estava fazendo doutorado na Universidade de Nevada, EUA, mas o campo era aqui no Brasil, onde as aves passavam o período de invernada.

Isso significa que as aves vinham lá do hemisfério Norte, bem norte mesmo, do Alasca e norte do Canadá, para passar o inverno de lá (por isso período de invernada) aqui, no verão do Sul do Brasil. As aves migram milhares de quilômetros para escapar do inverno e para aproveitar o verão daqui, muito abundante em comida.

Fui aceita no estágio! Fiquei super empolgada!! Nunca tinha saído de Brasília para ficar esse tempo todo longe da minha família. Ainda mais em um lugar onde o celular não pegava (ou só pegava se você subisse em uma ávore), onde não tinha telefone, só telefone à rádio. Fiquei aflita, ansiosa, mas super empolgada! A empolgação venceu a saudade que iria sentir.

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Tive que trancar o semestre para poder fazer o estágio, pois, como estávamos recuperando da greve, de dezembro a março estávamos cumprindo o último semestre de 2002; mesmo período que eu passaria fora.

Fomos de carro, de Brasília para o Rio Grande do Sul. Me encantei com o local, com as pessoas (quando passei a entender o que eleas estavam falando) e com as aves. Que lugar LINDO de morrer! Tive o privilégio de conhecer aves que eu nunca tinha visto na vida! De uma diversidade maravilhosa! Apaixonei pelo banhado, pelos pampas e pelo maçarico-acanelado, ave que a Ju estudava.

Maçarico-acanelado – Calidris subruficolis (Foto: Júlio Silveira)

É lindinho demais, né?!

A dinâmica do campo era assim: acompanhávamos o grupo de tardezinha, para marcar no gps onde eles iriam se aninhar para dormir. Voltávamos nos mesmos locais (marcados) para capturar e marcar as aves a noite. Tinha que ser a noite, sem lua de preferência. Porque, só assim as aves não percebiam a nossa chegada.

Procurávamos os bichinhos com lanternas normais e quando avistávamos um, acendíamos uma luz bem intensa, com bateria (pesada) acoplada, para que a ave ficasse imóvel (por estar momentaneamente cega com a luz). Nesse momento, aproximávamos lentamente para que a Ju baixasse o puçá sobre a ave. Quando nenhum quero-quero gritava e espantava todos, conseguíamos ter sucesso!

Uma vez capturado, iámos correndo para tirar o bichinho do puçá, para não se enrolar muito na rede e não se machucar. Desligávamos a luz forte e ficávamos só com as lanternas de cabeça ligadas. Medíamos, pesávamos e anilhávamos o bicho. Eu anotava todas as medidas e segurava o bicho quando era necessário.

Tudo isso era feito no escuro total. Não fazia ideia do que estava a nossa volta, porque não dava para enxergar. Era breu total! O foco era nas nossas mãos, no animal e na prancheta. O que era muito massa para ver as estrelas, o céu maravilhoso e o nascer da lua nova! Coisa mais linda!

*Giphy

Um belo dia desses, de breu total, saímos para anilhar (capturar a ave, colocar a identificação – anéis nas patinhas -, medir e pesar). Conseguimos pegar um bicho e estávamos sentadas no chão, trabalhando tranquilamente, até que eu senti uma presença atrás de mim. Algo entrou na minha “aura”, no meu campo de sentido.

Fiquei aflita, mas terminei o trabalho que estava fazendo: anotar as medidas do maçarico que a Ju estava tirando. Finalizado este processo, olho para trás e vejo uma capivara adulta (e grande, por sinal), parada, olhando fixamente para mim. Levei um baita susto!

*Giphy

Como ela estava muito próxima de mim e me encarando muito, falei para Ju: “vou levantar um pouco para ver se essa capivara toma um rumo!”. Me levantei e continuei olhando para ela. Para você ter noção do tamanho do bicho, ela sentada era maior que eu sentada.

Quando me levantei, ela percebeu que eu era maior e acabou mudando o olhar. Passou a me olhar com rabo de olho, até que se levantou e foi embora.

Eu me tranquilizei e voltei a sentar para terminar de ajudar a Ju com o maçarico que tinha em mãos. Meu coração ainda batia frenético, com adrenalina no talo! Mas, foi só um susto e nada mais!

Tenho mais histórias desse estágio maravilhoso que fiz e que mudou minha vida. Sou muito grata à Juliana Bosi por ter me concedido o estágio e ter me ensinado tanto! Acabamos nos tornando amigas e voltamos a trabalhar juntas novamente em 2016, na SAVE Brasil.

E escrevo essas histórias para mostrar que mulher pode sim ser o que ela quiser! Inclusive, bióloga/ecóloga de campo. 😉

Publicado por Carol Bernardo

Sou a Carol. Também sou bióloga, ecóloga e economista, bailarina, mãe de duas cãs, professora universitária, pesquisadora por paixão, vascaína por opção, carioca de nascimento, brasiliense de coração e escritora nas horas vagas.

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